sábado, 30 de outubro de 2010

Olimpíada de Língua Portuguesa - Textos vencedores da Etapa Escolar

Depois de muito esforço, trabalho e dedicação, que tornaram altamente difícil a escolha dos textos finalistas, dada a excelência na qualidade de suas produções, mérito da equipe escolar e de todos os alunos empenhados nesse processo, é com muita honra que publico os textos vencedores da Etapa Escolar da Olimpíada de Língua Portuguesa, realizada na EE Ministro Laudo Ferreira de Camargo, com os 2º e 3º anos do Ensino Médio.

Com maior honra e alegria, faço saber que o texto da aluna Patrícia dos Reis Campos, vencedor da Etapa Escolar, foi o primeiro colocado na Etapa Municipal, classificado na Etapa Estadual e está concorrendo agora na Etapa Regional. Estaremos lutando, de 16 a 18/11/2010, para estarmos na grande final!!! Torçam por nós!!!

Parabéns a todos que, mesmo não tendo sido classificados, superaram-se em suas produções.

1º Lugar
Cultura e educação junto à comunidade

Patrícia dos Reis Campos

O lugar onde vivo é a cidade de São Bernardo do Campo, que possui 810.979 habitantes e se destaca pelas indústrias automobilísticas e moveleiras que nele se localizam.
Situado a noroeste do município de São Bernardo do Campo, está o bairro Paulicéia, onde resido, e nele estão presentes indústrias de destaque como a Mercedes-Benz, Mahle entre outras pequenas e grandes empresas.
Industriais com nomes de reconhecimento internacional ajudaram a promover atividades culturais e educacionais em nossa cidade, como foi o caso do produtor italiano Franco Zampari e pelo industrial Francisco Matarazzo Sobrinho, que, em 4 de novembro de 1949, fundaram a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, ajudando a construir a história do cinema nacional, com personalidades como Amácio Mazzaropi, indiscutível campeão de bilheteria até a década de 70, transformando nossa cidade em uma espécie de “Indústria Cultural”, além da sua fama de “Capital do Automóvel”.
Penso que em uma cidade com esse histórico, as atividades culturais e educacionais são extremamente importantes e devem ser disponibilizadas à população de maneira que todos tenham acesso. Aqui na Vila, a Biblioteca Municipal Érico Veríssimo, fundada em 1978, antigamente se localizava na Rua Francisco Alves, no centro do bairro, e, desde 2005, foi transferida para uma de suas extremidades, na Rua Jacob Bandolim, devido à necessidade de reforma do prédio antigo.
O problema é que o que era transitório se tornou permanente, a reforma do antigo local não foi concluída e ainda encontramos dificuldades para o acesso ao acervo da Biblioteca, o que proporcionou a imensa diminuição de seus usuários. Muitos dos antigos frequentadores argumentam que a biblioteca parece ter sido esquecida pela Prefeitura, pois o que vemos hoje é um prédio todo pichado e se deteriorando com a ação do tempo, trazendo uma “poluição visual” a nossa comunidade. É importante salientar que no mesmo prédio onde funcionava a antiga biblioteca, funcionava também o Teatro Procópio Ferreira, onde eram oferecidas várias oficinas culturais à comunidade (teatro, violão, canto, literatura), o que fazia dele, além de um local de aprendizado, um local de lazer para a comunidade, uma vez que essas oficinas faziam apresentações para o público local e também recebia algumas apresentações de outras regiões.
Segundo o secretário de Coordenação de Ações Voltadas à Comunidade, Admir Ferro, o prédio antigo não era adequado ao atendimento do grande número de usuários, que evidentemente diminuiu após a mudança.
Na minha opinião as atividades culturais e educacionais exercidas na Biblioteca, por meio da leitura e projetos, como Contadores de Histórias entre outros, são essenciais para o lazer da comunidade e são um atrativo para os visitantes do munícipio.
Muitos argumentam que o local atual é mais silencioso e agradável, portanto, ideal para uma biblioteca. Outros ignoram a importância desse estabelecimento, defendendo o uso da internet para entreter e pesquisar.
Não se deve desconsiderar a importância da internet, entretanto, ela não pode oferecer os projetos educativos e culturais de uma biblioteca e muito menos substituir o prazer de folhear as páginas de um livro.
O gosto pela leitura e as atividades culturais devem ser trabalhadas nas bibliotecas junto à comunidade, por isso ela não deve ser isolada do público e deixada em segundo plano. Além disso, o Teatro Procópio Ferreira também deveria ser reformado, já que mais do que cultura, lazer e educação, ele representa uma parte da história da comunidade que deveria ser preservada, e talvez até tombado como Patrimônio Histórico e Afetivo Local.
Penso que a solução seria concluir a reforma do antigo local da Biblioteca, ou então a criação de um novo projeto que envolvesse a mudança para um local mais amplo e adequado, onde também pudesse ser reconstruído um teatro em local de fácil acesso para resgatar a cultura e a história do bairro, tornando-o um ponto atrativo para a visita de pessoas de outras cidades, estados e até mesmo países, funcionando como veículos que promovessem a nossa “Indústria Cultural”.
Assim, os moradores do bairro Paulicéia ficariam mais estimulados a participarem dos projetos e oficinas culturais da Biblioteca e do Teatro, valorizando então a importância desses locais, que representam lazer, educação, cultura e história e quem sabe começaria a nascer aqui uma infinidade de atores e escritores.
2º Lugar
Homens de Ferro x Meio Ambiente
Bianca Wellyngton

O lugar onde vivo é um município localizado no estado de São Paulo, chamado São Bernardo do Campo, contendo uma população de 810.797 habitantes. Seu formato assemelha-se a uma imensa bacia, pois além de rico em áreas hidrográficas seu clima e vegetação são típicos de áreas mananciais. Abrange uma população miscigenada, devido às implantações de grandes empresas, que nos beneficiam, mas também nos trazem problemas.
Em nosso município, uma das principais fontes de renda, são as empresas automobilísticas multinacionais como Mercedes Benz, Ford, Volkswagen, Scannia, Toyota e muitas outras, que geram milhares de empregos para nossa população, fazendo com que seus associados consigam sustentar e educar seus filhos através do lucro gerado pelas mesmas. Devido à sua rotina de trabalho maquinífico, podemos considerá-los como "Homens de Ferro", pois passam a maior parte do seu tempo lidando com "robôs", sendo assim, se tornam robotizados, pois sua rotina de trabalho se constrói em movimentos repetitivos, enquanto as máquinas tornam-se “humanas”, fazendo todo o trabalho manufaturado.
Mas algo que está em nosso dia-a-dia vem afetando não só estes trabalhadores, como também toda a população. O excesso de poluição atmosférica, não é causado só pelo seu processo produtivo, mas também pelo seu produto final. Penso que é indiscutível uma correção a estas falhas, pois além de sofrermos com os veículos em si, ainda temos de sofrer com toda esta combustão que nos rodeia.
Sem dúvida estas multinacionais trazem para nosso município lucro e reconhecimento, pois segundo dados da ARTEB, milhões de reais estão sendo aplicados por ano em pesquisa na região, o que resulta na contratação de mão-de-obra brasileira qualificada, otimização de custos, aumento de produtividade e conquista de novos mercados.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior foram exportados US$ 4,491 bilhões em 2006. Esse resultado manteve a cidade em quarto lugar no ranking dos municípios que mais exportaram no Brasil, em terceiro do Estado de São Paulo e em primeiro do Grande ABC. É indiscutível que estes fatos nos fazem perceber a existência de benefícios, devido às implantações das mesmas. Mas também nos geram problemas, principalmente em nosso meio ambiental.
Penso que os aspectos negativos existem devido à poluição do ar atmosférico, pois episódios causados em décadas anteriores deixaram a população em pânico devido aos fortes odores, decorrentes do excesso de poluentes lançados pelas indústrias, causando mal-estar e lotando os serviços médicos de emergência.
Já os pontos positivos nos trazem a implantação de novos meios de educação e especialização, pois com a chegada das indústrias, foram criados na região centros técnicos especializados, como por exemplo: Termomecânica, SENAI, ETE e FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), além dos vários empregos gerados para toda a população.
Pessoalmente acho que são muitos os benefícios que devem ser considerados, afinal a maior parte de nossa população se mantém através desse meio. Mas também não podemos negar que a poluição nos preocupa cada vez mais, pois já sofremos muito com os gases emitidos devido ao excesso de veículos, principalmente em congestionamentos nos horários de pico (entrada e saída de funcionários nas indústrias).
Segundo a revista “Cidades do Brasil” os veículos motorizados lançam para a atmosfera uma infinidade de gases e outras substâncias químicas, todos eles de grande toxidade. Mesmo com a regulamentação estabelecida pelo Programa de Controle da Poluição Veicular, o problema da poluição atmosférica continua grave. Principalmente com engarrafamentos gigantescos e acidentes frequentes.
Está claro que esse é um problema que não poderá ser mudado de um dia para o outro, mas pessoalmente acho que as indústrias poderiam criar programas de conscientização ambiental, não só para seus funcionários, mas também fornecer meios educativos, ensinando as melhores formas de consumo do produto sem agressão ao nosso meio, melhorando assim a mão-de-obra, aprendizado e vida de seus trabalhadores.
Com a conscientização das empresas e com a responsabilidade e cumprimento das leis decretadas, tudo ficaria mais simples: basta abrir mão de uma parte de seu lucro, investindo em novas tecnologias e estudos científicos para que o meio ambiente não fosse afetado. Assim, todos poderiam desfrutar de um município melhor, pois com o excessivo crescimento tecnológico criou-se um meio ambiente no qual a vida se tornou física e mentalmente doentia, e os "Homens de Ferro” veriam em suas máquinas o futuro da industrialização e globalização crescendo de acordo com a evolução do homem, mas com humanidade, o que tornam os fatos bem diferentes.


3º Lugar
A Grande Capital Automobilística: Progresso versus Trânsito e Poluição
Lucas Martins

Vivo em São Bernardo do Campo, um município brasileiro do estado de São Paulo, que possui cerca de 408,45 km² e aproximadamente 810.979 habitantes. A cidade é conhecida como a Capital Automobilística e Moveleira da região. O fato que explica a fama da cidade como sendo a capital automobilística é o grande número de multinacionais do ramo que cercam a região, e também o grande número de escolas técnicas que lecionam em virtude das indústriais, promovendo assim cada vez mais a indústria de veículos no município.
Uma grande multinacional chamada Mercedes Benz chegou ao Brasil em 1954 e instalou-se em um bairro da cidade chamado Vila Paulicéia, que de fato é o bairro onde vivo. A empresa causou o grande surto de desenvolvimento do bairro, trazendo muitos empregos para a população.
A multinacional continua gerando empregos e atraindo a população, mas há uma desvantagem, pois o bairro se desenvolveu, e foi criado o Hipermercado Extra, localizado no corredor ABD, que fica muito próximo da Mercedes Benz do Brasil, e é justamente a saída que liga São Bernardo do Campo a outros municípios vizinhos como Santo André e Diadema, sendo assim, em certos horários do dia, o trânsito torna-se caótico, pois há pessoas que querem sair do município, outras que querem ir ao Hipermercado Extra, e também há a saída dos funcionários da Mercedes Benz do Brasil.
Segundo dados estatísticos de 2009 da Universidade Metodista de São Paulo, mais de 800 mil carros circulam diariamente em São Bernardo do Campo, sendo que a frota de carros do município é de 450 mil veículos.
Considerando o fato de que circulam mais de 800 mil carros por São Bernardo do Campo e a frota do município que é de 450 mil veículos, aproximadamente 350 mil veículos de outros municípios passam por São Bernardo do Campo, e “essa é uma peculiaridade da região”, comenta o diretor do Departamento de Engenharia do Tráfego de São Bernardo, Epeus Monteiro.
O trânsito traz consequências tanto para motoristas quanto para pedestres, pois há muitos riscos de engarrafamentos e acidentes, também trazendo risco para quem utiliza o transporte público. Além disso, os carros liberam poluentes, e entre eles há o dióxido de carbono que contribui para o efeito estufa e o aquecimento global, também há o monóxido de carbono, que é um gás venenoso, entre outros.
O grande número de carros nos mostra que essas empresas estão lucrando, tanto com a venda dos veículos quanto com o crescimento e a evolução devido ao grande número de funcionários, e esses fatores nos levam perceber que as empresas estão progredindo, trazendo, de fato, benefícios para a cidade.
Sendo que há aspectos negativos e positivos em relação a esse assunto, penso que apesar de trazer lucros e benefícios para as empresas e consequentemente para a cidade, o número excessivo de carros no município aumenta o índice de poluição do ar atmosférico e também o risco de acidentes e congestionamentos, que são fatores negativos que não devem ser apoiados, mesmo sendo ocultados por grandes aspectos positivos.
Esses problemas podem ser difíceis de resolver devido ao gasto necessário, que no caso, talvez não seja muito alto, pois suponho que as empresas possuem uma renda que permite o acesso a novas tecnologias e também ao estudo de novas tecnologias envolvendo catalisadores mais eficientes que possam reduzir cada vez mais a emissão de poluentes na atmosfera, diminuindo o índice de poluição atmosférica da região.
No caso do trânsito, seria necessária a elaboração de um projeto que venha a conscientizar os funcionários a utilizarem o sistema de transporte que a empresa oferece. Também pode ser utilizado o sistema de rodízio de veículos, como em São Paulo, onde os veículos só podem passar pela cidade se o último número da placa estiver de acordo com o dia da semana, sendo assim, uma grande parcela de veículos não poderiam passar pela cidade em certo dia da semana, e no caso da Vila Paulicéia, a questão poderia ser resolvida com a abertura de outra entrada para o Hipermercado Extra ou para o corredor ABD.
Enfim, o progresso da cidade é muito importante, mas a implantação de algumas medidas para amenizar o trânsito e consequentemente o número excessivo de veículos na cidade seria essencial, pois além de evitar congestionamentos e acidentes, poderá reduzir o índice de poluição atmosférica da grande Capital Automobilística.
Profª Rita Bordoni

domingo, 12 de setembro de 2010

“Releituras - Ciclo de Palestras Vestibular e Literatura”.

A partir do dia 04 de setembro, a PUC-SP apresenta o “Releituras - Ciclo de Palestras Vestibular e Literatura”.

Serão discutidas as obras literárias solicitadas nos vestibulares da FUVEST, PUC-SP e UNICAMP.

Todas as palestras serão gratuitas e ministradas por professores da PUC-SP, especializados em literatura.

Ciclo de Palestras Vestibular e Literatura

Todos os sábados de setembro e outubro das, 10h às 12h30

Confira a programação:

Setembro

04 O cortiço - Aluísio Azevedo
Prof. Erson Martins

11 Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida
Prof. Carlos Eduardo Siqueira

18 Auto da barca do inferno - Gil Vicente
Prof. Fernando Segolin

25 Vidas secas - Graciliano Ramos
Profa. Noemi Jaffe


Outubro

02 Iracema - José de Alencar
Profa. Juliana Loyola

09 Dom Casmurro - Machado de Assis
Profa. Maria Aparecida Junqueira

16 Antologia poética - Vinícius de Moraes
Profa. Ana Salles

23 Capitães da areia - Jorge Amado
Profa. Noemi Jaffe

30 A cidade e as serras - Eça de Queiros
Prof. Carlos Eduardo Siqueira

Local:

TUCA – Teatro da PUC-SP
Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes
Informações:
marketing@pucsp.br
(11) 3670-8321

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O que está ausente no texto abaixo? Tente descobrir !!!!!

Sem nenhum tropeço, posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo permitindo, mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível.
Pode-se dizer tudo, com sentido completo, como se isto fosse mero ovo de Colombo.

Desde que se tente sem se pôr inibido, pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.

Trechos difíceis se resolvem com sinônimos. Observe-se bem: é certo que, em se querendo, esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo.
Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo esporte do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o "E" ou sem o "I" ou sem o "O" e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo, sem o "P", "R" ou "F", ou o que quiser escolher. Podemos, em estilo corrente, repetir sempre um som ou mesmo escrever sem verbos.

Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir.
Porém mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objeto escolhido, sem impedimentos.
Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês.
Por quê? Cultivemos nosso polifônico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, escrínio de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.

Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores. Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos.

domingo, 21 de março de 2010

REDAÇÃO DE ALUNA DA UFPE

Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE UniversidadeFederal de Pernambuco (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro:ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.
Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.
Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

"Sintaxe à vontade"

O Teatro Mágico
Compositor: Fernando Anitelli

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto e indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
e estar entre vírgulas pode ser aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua verdade, sua fé
que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
que enxerguemos o fato de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não
façamos parte do contexto da crônica
e de todas as capas de edição especial
sejamos também o anúncio da contra-capa
mas ser a capa e ser contra-capa
é a beleza da contradição
é negar a si mesmo
e negar a si mesmo
pode ser também encontrar-se com Deus
com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
cada um possa se encontrar no outro
até porque...
tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta tudo numa coisa só?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vampiro de mim

Um céu, um ser, um solo...
cidade quase cemiterial.
Entre as nuvens esparsas e negras
lua cheia, chuva e neblina
um vampiro a me seguir.
Entro, saio, corro, páro, pulo, sacolejo...
viro, danço, passo por avenidas e becos.
No chão molhado procuro a minha face
desprendida num corpo etéreo.
Multidão de silhuetas onde circulam meu fluido vital
vão, vem e se cruzam, mas, para onde vão?
São elas meus pensamentos, caminhos do bem ou do mal?
De repente, numa esquina, uma única sombra.
Comigo só solidão.
Vou devagar... me arrastando no muro enquanto a sombra vai crescendo mais e mais...
Num monte de lixo, atrás do poste, um pedaço de madeira...
Tento pegar sem nenhum ruído...e...quando me levanto,
uma gargalhada solta e me encara...
Num súbito impulso, cravo a estaca em seu peito!
...e ao ouvir ecoar o grito da dor vizinha,
só então percebi que a sombra que matei era minha!
Sou eu, vampiro de mim,
uma alma triste e vazia...
na cidade deserta... que nunca tem
FIM!

O ascensorista

Profissão estúpida!!!... eu diria há algum tempo atrás. Percebo agora que não existem profissões estúpidas, mas pessoas estúpidas. A maioria é.

Vi hoje um ascensorista no Hospital dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo. Que graça teria uma profissão em que se passa o dia sentado, apertando botões, subindo e descendo de um andar para o outro? – Nenhuma, não é? Mas veja só:

- Bom dia, gente! Vamos entrar, vamos entrar, vamos entrar! Cadeiras de rodas e muletas, primeiro! (e o elevador começou a encher...).
- Vamos, gente, coração de mãe sempre cabe mais um! Tem muitas mães aqui? Vamos dar uma apertadinha! Ô, velho safado, não é essa apertadinha, não!!! (elevador lotado,2º andar).
- Pessoal, mais uma mocinha quer entrar, vamos puxar ela pra dentro? (...era uma senhora de uns 70 anos!)
- Obrigada pelo “mocinha”! (com um sorriso no rosto).
Disse uma moça:
- O Senhor é engraçado, só pode ser ator do Casseta e Planeta!
- Xiii, moça, neste planeta estou é cassetado! (risos no elevador... 3º andar, e eu desci com a minha mãe.)
Mas vejam, só foram necessários três andares para que este homem se tornasse imortal. Ele não era médico, mas tinha a receita da alegria e a certeza de que estava fazendo o seu melhor. Este é o lado belo da vida. Nesse hospital, a cura começou no elevador...
Este homem não era um ascensorista, mas um elevador de almas!