sábado, 3 de novembro de 2012

Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro 2012


Depois de muito esforço, trabalho e dedicação, que tornaram altamente difícil a escolha dos textos finalistas, dada a excelência na qualidade de suas produções, mérito da equipe escolar e de todos os alunos empenhados nesse processo, é com muita honra que publico os textos vencedores da Etapa Escolar da Olimpíada de Língua Portuguesa, realizada na EMEF Péricles Eugênio da Silva Ramos,   para as 4ª séries (Fund I) e 5ª séries (Fund II) na categoria "poema" e para as 8ª séries (Fund II) na categoria "crônica".

Com maior honra e alegria, faço saber que o texto da aluna Ingrid Spinola dos Santos (8ª A),  foi classificado na Etapa Municipal e na Etapa Estadual e está concorrendo agora na Etapa Regional. Estaremos lutando, de 05 a 07/11/2012, em Natal (RN), para estarmos na grande final!!! 
Com igual honra, informo que o texto do aluno Henrique Dias da Silva (4ª A) obteve a mesma classificação e buscaremos uma vaga na final durante durante o período de 20 a 22/11/2012, em Fortaleza (CE).

Torçam por nós!!!

Parabenizo também todos os alunos que, mesmo não tendo sido classificados, superaram-se em suas produções.



Sábado à noite é de Heliópolis

Por Ingrid Spinola dos Santos


Moro em Heliópolis e me orgulho disso, do meu bairro do sol, tem seus defeitos, como qualquer outro, mas tem também suas grandes qualidades. O "Helipa", como nós íntimos o chamamos, pode ser um bairro de tráfico, das drogas, das crianças que morrem precocemente, mas também é um bairro de povo feliz, que tem samba no pé, que sonha com a paz e luta por ela, o bairro de crianças que jogam futebol descalças na rua e de pessoas que saem de casa em busca de uma vida melhor. É um Heliópolis de brasileiros que não desistem fácil, filho do Ipiranga, terra mãe dos vencedores.
Esses dias, em um sábado, fui com meu pai comer no "Mec Favela", uma lanchonete bastante movimentada do Helipa. Era um lugar pequeno e comum, com as paredes já amarelas com o tempo, e de mesinhas de madeira. O lugar estava cheio. Meu pai e eu sentamos em uma mesa de quatro pessoas, a única que sobrara. "Uma coxinha e dois pasteis". O olhar perdido nos arredores, aguardando o pedido. Em uma mesa um pouco distante da nossa, uma mulher com três crianças bem arrumadas. Ao lado, dois homens com roupa de mecânico e duas mulheres com vestidos super colados. No resto das mesas só tinham pessoas que não chamavam muito a atenção. Assim que nosso lanche chegou, entrou na lanchonete uma moça muito bonita, mas o que mais me chamou a atenção é que ela trazia na mão um violino. Vendo os únicos lugares vazios (que eram os da nossa mesa), a moça veio diretamente em nossa direção. Em um tom educado, perguntou:
- Será que eu poderia me sentar aqui?
- Fique à vontade! - respondeu meu pai.
Assim ela se sentou... e comecei a observá-la. Ela era morena e tinha os cabelos lisos e brilhantes em um corte chanel, era alta, esguia, vestia um jeans com uma camiseta branca. Logo depois de um chute no estilo "acorda, menina!", parei de encarar a moça e olhei o seu violino, que ela tinha colocado delicadamente na cadeira da frente. Ele era lindo, nunca tinha visto um de perto! Ela percebeu meu olhar e perguntou:
- Sabe tocar?
- Eu... eu não! - disse sem jeito -Mas você sabe. Não era uma pergunta, era uma afirmação. Deduzi isso porque ninguém "normal" sai andando com um violino na mão sendo que não sabe tocar. Ela sorriu gentilmente e fez que sim com a cabeça. Tique que sorrir também. Então ela disse:
- Conhece o Baccarelli?
- Não! - meu pai respondeu se intrometendo.
- Sim! - respondi, confundindo a moça. O Baccarelli tinha se apresentado uma vez na minha escola, um coral de crianças, e foi lindo. Então comecei a lembrar do dia e das músicas alegres que as crianças tinham cantado. E interrompendo os meus pensamentos, a moça disse:
- O Baccarelli é uma instituição que foi criada em 2005. É uma escola de música que foi criada pelo maestro Silvio Baccarelli. A escola tem mais de 1.100 alunos - e parou para agradecer seu lanche - os mais velhos tocam instrumentos e os mais novos treinam músicas no coral.
- Ah, é claro, já ouvi falar! - disse meu pai, surpreendido.
- O Baccarelli não é só uma ONG, é muito mais que isso! É a vitória de muita gente, a prova de que na favela se tem muito mais do que gente drogada. O Baccarelli tira crianças das ruas para mostrar-lhes a beleza da música... e em suas notas, o caminho certo a seguir.
Assim todos nós ficamos em silêncio para a moça comer. Vi que meu pai tinha encerrado o assunto, mas eu sou uma pessoa curiosa e quis saber mais. Então perguntei:
- Já tocou em algum lugar que jamais irá se esquecer? - disse, levando outro chute de reprovação.
- Sim - respondeu a moça, sorrindo. Vi nos seus olhos o orgulho. - Na Sala São Paulo, em um sábado à noite...
- Está brincando! - disse meu pai - Essa é uma das melhores do país! Ainda mais em um sábado! Como foi?
- Sim, é sim. Foi mágico, sonho com ela toda noite - respondeu - O melhor foi voltar pra casa e ver o sorriso de todos, o rosto cheio de orgulho. Saímos da realidade, meu pai e eu, pensando em como pessoas que eram excluídas da sociedade só por viver em uma favela podiam ser aplaudidas pelas mesmas pessoas que diziam que não éramos capazes... em pé ainda! E com lágrimas no rosto!
- Cadê a moça? - perguntei ao meu pai.
- Não sei, sumiu! Mas o fato é que sábado à noite é de Heliópolis! É nosso!


Heliópolis: o bairro do sol

Por Henrique Dias da Silva

O lugar onde vivo fica no Ipiranga
Onde "o sol da liberdade em raios fúlgidos
brilhou no céu da pátria nesse instante"
Isso eu descobri em um livro que estava na estante!
Pra quem está de fora o meu bairro não é muito amado,
Também não é bem falado,
Quando se fala em Nova Heliópolis
Todo mundo fica abismado!
Pensam logo em tráfico de drogas, funk, RAP,
Ataques do PCC e polícia com cacetete!
Aqui tem muita violência e também pessoa boas que com isso não tem nada,
Por isso todo ano fazemos pela Paz uma Caminhada.
É homenagem pra uma menina (se chamava Leonarda)
que com cinco tiros na porta da escola foi assassinada!
Mas a beleza existe pra quem consegue ver,
Pode ser eu e pode ser você!
Quando abro a minha janela
vejo o colorido da favela,
formando um mosaico que poderia estar numa tela
em um museu de arte moderna!
Uma imagem ainda mais bela
é formada pelos meninos que jogam bola na viela
É pra lá que eu vou,
formar meu time e fazer gol!
Aqui também tem o Instituto Baccarelli
Joia da nossa comunidade,
cujo coração é regido
por Beethoven, Mozart e Wagner!
É nessa orquestra em que toco,
lá tem piano, viola e violino
mas meu instrumento é o contra-baixo,
minha paixão de menino!
E entre tantos "et ceteras"
também tem grandes festas
No Ano Novo é uma maravilha
Todos comemorando com suas famílias!
Em dia de jogo é pior...
quero dizer, é muito melhor!
Fogos de artifícios para todos os lados
Fogos amarelos, azuis, vermelhos e dourados
Nessas horas, em meio a esse rol
É que lembro do significado do lugar onde moro:
Heliópolis, o bairro do sol!
É tão sensacional!
O lugar onde moro
Está no hino nacional!




segunda-feira, 23 de julho de 2012

FODA-SE


( Millor Fernandes )

O nível de stress de uma pessoa
é inversamente proporcional
a quantidade de
foda-se!
que ela fala.

Existe algo mais libertário
do que o conceito do
foda-se!?
O foda-se!
aumenta minha auto-estima,
me torna uma pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Me liberta.
- Não quer sair comigo ?
Então foda-se!

- Vai querer decidir essa merda
sozinho (a) mesmo?
Então foda-se!.

O direito ao foda-se!
deveria estar assegurado
na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso.
São recursos extremamente válidos e criativos
para prover nosso vocabulário
de expressões que traduzem
com a maior fidelidade
nossos mais fortes e genuínos sentimentos.

É o povo fazendo sua língua.
Como o Latim Vulgar,
será esse Português Vulgar
que vingará plenamente um dia.

Pra caralho, por exemplo.
Qual expressão traduz melhor a idéia
de muita quantidade do que
Prá caralho?

Pra caralho
tende ao infinito,
é quase uma expressão matemática.
A Via-Láctea tem estrelas
pra caralho,
o Sol é quente
prá caralho,
o universo é antigo
pra caralho,
eu gosto de cerveja
pra caralho,
entende?

No gênero do Prá caralho,
mas, no caso, expressando
a mais absoluta negação,
está o famoso
Nem fodendo!.

O Não, não é não! e tampouco
o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade. Não,
absolutamente não! o substituem.
O Nem fodendo
é irretorquível, e liquida o assunto.

Te libera, com a consciência tranqüila,
para outras atividades
de maior interesse em sua vida.
Aquele filho pentelho de 17 anos
te atormenta pedindo o carro
pra ir surfar no litoral?
Não perca tempo nem paciência.
Solte logo um definitivo:
Marquinhos presta atenção, filho querido,
Nem fodendo!.

O impertinente se manca na hora!

Por sua vez,
o porra nenhuma!
atendeu tão plenamente as situações
onde nosso ego exigia
não só a definição de uma negação,
mas também o justo escárnio
contra descarados blefes,
que hoje é totalmente impossível imaginar
que possamos viver sem ele
em nosso cotidiano profissional:
ele redigiu aquele relatório sozinho
porra nenhuma!.

O porra nenhuma,
como vocês podem ver,
nos provê sensações
de incrível bem estar interior.
É como se estivéssemos
fazendo a tardia e justa denúncia pública
de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos
aspone, chepone, repone
e mais recentemente, o prepone
- presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos.

Pense na sonoridade de um
Puta-que-pariu!,
ou seu correlato
Puta-que-o-pariu!,
falado assim, cadenciadamente,
sílaba por sílaba...
Diante de uma notícia irritante qualquer
puta-que-o-pariu!
Dito assim te coloca outra vez em seu eixo.
Seus neurônios têm o devido tempo e clima
para se reorganizar e sacar a atitude
que lhe permitirá dar um merecido troco
ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso
vai tomar no cu!?
E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai
tomar no olho do seu cu!.

Você já imaginou o bem
que alguém faz a si próprio
e aos seus quando,
passado o limite do suportável,
se dirige ao canalha de seu interlocutor
e solta:

Chega!
Vai tomar no olho do seu cu!.
Pronto,
você retomou as rédeas de sua vida,
sua auto-estima.
Desabotoa a camisa e sai a rua,
vento batendo na face,
olhar firme, cabeça erguida,
um delicioso sorriso de vitória
e renovado amor íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto
não registrar aqui
a expressão de maior poder de definição
do Português Vulgar:
Fodeu!.
E sua derivação mais avassaladora ainda:
Fodeu de vez!.

Você conhece definição mais exata,
pungente e arrasadora
para uma situação
que atingiu o grau máximo imaginável
de ameaçadora complicação?
Expressão, inclusive, que uma vez proferida
insere seu autor
em todo um providencial contexto interior
de alerta e autodefesa.
Algo assim como quando você está dirigindo bêbado,
sem documentos do carro
e sem carteira de habilitação
e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar:
O que você fala?
Fodeu de vez!.

Liberdade, igualdade, fraternidade e
foda-se!!!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sobre a inclusão do gênero "CRÔNICA" na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro


Pela primeira vez, em 2010, a crônica foi incluída entre
os gêneros textuais que fazem parte da Olimpíada de Língua
Portuguesa Escrevendo o Futuro.
Notícia ou texto literário? Por apresentar múltiplas facetas,
mais do que um gênero textual, a crônica traz um olhar
particular. Ao recortar cenas do cotidiano, o autor ilumina
situações, fatos, dando-lhes destaque, atribuindo-lhes um
novo sentido. O que poderia passar despercebido torna-se
encantador, envolvente, surpreendente, marcante.
Ao contrário do que parece, a criação de uma crônica não é
tarefa simples. Construir um sensível olhar pensante,
selecionando e amarrando os detalhes, é o primeiro passo
para elaborar um texto interessante que transporta o leitor
para a perspectiva do escritor.
Sensações, observações, lembranças e casualidades se
misturaram: nossos jovens cronistas identificaram personagens
pitorescos, construíram novos sentidos para experiências
cotidianas e passaram a valorizar o lugar onde vivem.
Os alunos aceitaram o desafio de trazer fragmentos da realidade
e do cotidiano para serem transformados em palavra escrita.
Ao ler essas crônicas, você terá a oportunidade de conhecer
um pouco do modo de ser e viver através das lentes de alunos
das escolas públicas brasileiras dos quatro cantos do país.

Leia os textos no link:
http://www.escrevendo.cenpec.org.br/images/stories/publico/noticias/20101201cronica.pdf

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Proposta de redação para os 2º e 3º anos do Ensino Médio - Carta pessoal

Leia atentamente a proposta de redação abaixo que estava circulando na internet:






O enunciado diz: "Imagine que você é um imigrante de origem chinesa na America (EUA). Escreva uma carta para contar suas experiências". É claro que você percebeu a brincadeira feita pelo estudante, que escreveu a carta em chinês ou imitando a escrita chinesa, levando ao "pé-da-letra" a pertinência temática. Obviamente ele teve seus méritos no quesito "criatividade", mas o problema é que a carta ficou fora de contexto, pois não foi possível para o examinador avaliar os itens para essa proposta, que devia levar em consideração as diferenças culturais existentes entre os povos em questão, principalmente por se tratar de um oriental no ocidente. Também os itens que compõem a carta: local e data, vocativo, saudação, despedida e assinatura não estão claramente visíveis. Tudo isso, certamente, fez com que o texto tivesse uma nota ruim. Sabendo disso, escreva uma versão em português para a carta do chinês, seguindo a mesma proposta.

Seu texto deve ser postado no blog até o dia 25/11/2011. Não serão aceitos os textos postados posterior a esta data. O mínimo é de 10 e o máximo de 30 linhas digitadas, sem contar os itens obrigatórios da carta.

Não esqueça de colocar, ao término da carta, o seu nome completo, número e série. Serão desconsiderados textos sem identificação.

Os textos copiados de outros alunos, embora com pequenas alterações, serão anulados. Faça sua pesquisa! Use sua criatividade!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Preguiça? – Só se for o bicho...

Por Jéssica Rangel Pereira

“É preciso ter fogo no coração para que o medo não vença.
É preciso ter fogo no coração para amar e uma vida salvar”

Em um dia qualquer de verão, quando o sol parece tomado de paixão, pintando o céu de vermelho e tornando ardente o calor da tarde, surge um grande incêndio numa floresta, causado por uma bituca de cigarro.
O fogo é tão intenso, que mesmo a quilômetros da cidade a fumaça é vista pela população, despertando a curiosidade de muitos sobre o que estaria ali havendo. O corpo de bombeiros foi chamado e, a princípio, o objetivo era apenas impedir o fogo de se alastrar, já que seria praticamente impossível encontrar alguém ali com vida.
Ao chegarem no local, os bombeiros ficaram estarrecidos com o enorme clarão que se levantava e se expandia em tons crescentes de amarelo-ouro, laranja e púrpura, seguido de ondas cinzentas que formavam um mar de fumaça, dominando o espaço celeste. Um verdadeiro espetáculo a olho nu, jamais presenciado em suas jornadas de trabalho... Como poderia uma luz tão bonita, tão forte, ser a causa de tamanha ruína?
Basicamente a visão dos bombeiros era de destruição, destruição e destruição... O que mais pediam (a Deus ou sabe-se lá a quem...) era que as vidas que ali estivessem pudessem se salvar sozinhas, porque não havia condições de fazer buscas por sobreviventes.
O tempo foi passando e o fogo se acalmando, porém ainda se espalhava pelas extremidades da floresta. Um dos bombeiros, com sua mangueira, mirava o jato de água além do fogo com a esperança de contê-lo. O olhar fixo no fogo da mata. De repente, em meio a toda aquela fumaça, algo se movia em uma árvore. Seu instinto profissional o guiou até lá.
O restante dos homens não conseguiam acreditar no que ele estava fazendo, todos gritavam desesperadamente para que ele voltasse, pois era se arriscar demais naquelas condições. É óbvio que o trabalho de qualquer bombeiro é se arriscar para salvar alguém, mas aquele incêndio... aquele incêndio era indescritível, parecia até que tinha vida própria!
O temerário bombeiro teve de se esforçar muito para chegar perto daquela árvore, já que o calor era incessante. Ao se aproximar um pouco mais, viu que realmente havia algo lá e que precisava de sua ajuda. Naquele instante, o homem estava ali não mais pela profissão que carregava, mas seguindo o pulso de seu coração e o valor que dava à vida.
Com grande esforço e sem hesitar em nenhum momento, o bom bombeiro conseguiu, enfim, resgatar aquela vida que, consciente ou não, lutava para continuar neste mundo.
Os outros bombeiros também agiram com êxito em relação ao fogo: o suficiente para deixar a situação sob controle. Todos eles estavam preocupados com o companheiro de trabalho que tinha adentrado aquele cenário suicida. Para a felicidade geral, avistaram o bombeiro voltando com algo em seu colo. Ao se aproximarem, muitos homens não conseguiam acreditar no que viam: o bombeiro com um bicho-preguiça nos braços!
A maioria ficou questionando o porquê dele ter feito aquilo, arriscar sua vida por conta de um animal... se fosse uma pessoa – que era o que todos esperavam – tudo bem... mas não! Aos ouvidos do nobre bombeiro, as vozes foram sumindo... ensurdeceu-se para as críticas: sentou-se no chão e gentilmente dava água para o bichinho - só o seu bem-estar importava.
Para acabar com todo aquele interrogatório, o bombeiro se levantou, e ainda com o animal em seu colo resolveu dizer: “Ao me tornar bombeiro, fiz o juramento de proteger a vida, o meio ambiente e o patrimônio da sociedade em quaisquer circunstâncias. Ao salvar esse animal nada mais fiz do que honrá-lo. Esse animal tem o direito à vida. Enquanto eu estiver no meu posto de trabalho, seguirei esse lema”.
O silêncio impregnou naquele momento. De tudo poderiam os colegas tê-lo chamado, menos de “bicho-preguiça”... essa certeza ele tinha!



DESCRIÇÃO DA IMAGEM
A inspiração para este texto nasceu de uma foto que mostrava um bombeiro que havia resgatado um bicho-preguiça. Ele segurava o animal no colo e dava água ao bicho com uma garrafa. Ao ver essa imagem eu pude entender a beleza que existe nos atos do ser humano.

Texto semifinalista no 7º Concurso Cultural Ler e Escrever é Preciso Ecofuturo

Devore-me!

Por Maxwell Candido


A visão do rosto dela... Com a fragrância enlouquecedora de comida, focaram nele emoções fortíssimas de ternura e fome, emoções indescritíveis...


Foi assim que os vi nesta cena quase “hollywoodiana”, pareciam esquecer o mundo a sua volta, como se não houvesse ninguém, como se aquele instante fosse o último, assim em meio à metrópole, sem problemas existentes na face da terra.
Ele: traje esporte. Ela: vestido simples, azulado. Ambos se olhavam estendido, por repetidas vezes, com um movimento lateral do rosto, só sendo distraídos por uma barraca de hot-dog, que subitamente entrou na frente dos dois. Ele discretamente deixou-se distrair pelo cheiro inevitável da comida. Estampados em sua face dois únicos desejos: a sua insaciável fome e a vontade de beijá-la... o que falava bem mais alto perante a beleza de sua amada. Os olhos exalavam sua louca vontade de agarrá-la e envolvê-la com seus braços na trama ardente que é o amor... e ao mesmo tempo de acabar de vez com a louca fome que o atormentava.
É assim: a mulher o espera imóvel, como uma mosca aguarda seu fim diante da tão temida aranha. E ele se aproxima... calculando cada movimento... cada passo... cada palavra... Fome! Voltava a lembrar de sua mais primitiva necessidade.
O cheiro do carrinho de hot-dog ao lado subia ao seu nariz como uma sinfonia aos ouvidos de Beethoven, em meio a todas as outras fragrâncias, nem sempre muito aceitáveis, num lance rápido, surge uma idéia, uma chance para a conquista: coloca a mão no bolso, retira em um movimento duas notas ligeiramente amassadas. Um pedido. Uma cena tipicamente americana em meio à metrópole bem mais que brasileira, espremendo-se e lutando por um local mais “livre” dentre a imensa multidão.
“Um completo, por favor!” Disse o rapaz, acenando logo em seguida com a cabeça, pegando seu pedido e indo confiante em direção a ela. Silêncio. Coração acelera. Ele chega perto. As palavras somem; mais um aceno. Na cabeça correm rápido todas as suas estratégias que subitamente somem, desaparecem, mas voltam como um “Dejá vu”.
“Olá?!” Disse ele em direção a ela, que afoita, se embaraçou, e com um jogar de cabelos, respondeu um singelo, porém, belo: “Oi!”. Ambos desconcertados com a presença alheia.
“Eu trouxe para você.” Disse ele entregando-lhe um singelo pão de centeio, cortado em duas fatias, com condimentos e uma imensa e gordurosa salsicha, mas que naquele momento só teria um único significado: Ele a quer, mas será que ela o quer mesmo?.
“Obrigada! Ainda se lembra dos meus gostos.” Disse ela com um sorriso no canto dos lábios. “É. Ainda me lembro bem do seu gosto.” Agora ele quem diz com um malicioso olhar: Fome! ...novamente o seu Eu primitivo o lembrava de sua necessidade. Mas agora ele só pensava em cortejá-la.
“Eu te amo!” Ela disse subitamente, abraçando-o; ele inerte, sem fala, e ainda com fome, balbuciando duas únicas palavras: “Me beije.” Dois desejos saciados em um: foi fatal!
...e assim, da mesma forma que cheguei, vi o movimento da cena: era o ônibus andando, o sinal abriu. Escuto o barulhento som do motor; buzinas; despedia-me daquela cena do “belo amor de momento” – como apelidei – que ia passando lentamente pelos meus olhos, como as nuvens cortam o céu. E fui retornando a minha vida com a cena “shakespeariana” mais brasileira que já vi.



Descrição da imagem

Bairro da Liberdade, o farol fecha. Da janela do ônibus, em meio às minhas distrações, observo um casal que aparentemente se desconhecia. Surpreendo-me com esta bela cena de amor: ele, um pobretão, afoito pela fome, prefere dar de comer a sua amada. Só depois percebi que o sentimento já vinha de longas datas.


Texto semifinalista no 7º Concurso Cultural Ler e Escrever é Preciso Ecofuturo

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

QUEM NÃO PODE COM MANDINGA NÃO CARREGA PATUÁ

Uma antiga expressão diz:
“Quem não pode com mandinga, não carrega patuá”.

Os Mandingas são grupos de africanos do norte que, pela proximidade com os árabes acabaram se tornando muçulmanos, religiosos que tem muitas restrições aos que não aceitam Alá como Deus ou Maomé como o seu profeta.

Com o crescimento do tráfico de escravos, vários negros mandingas vieram parar no continente americano, vítimas da ambição dos brancos. Muitos desses escravos sabiam ler e escrever em árabe. Esse estado superior de cultura desse grupo de negros fez com que fossem rotulados de feiticeiros, passando a expressão mandinga a designar feitiço.

Por outro lado, os negros que praticavam o culto aos Orixás eram vistos como infiéis pelos negros muçulmanos. Os senhores brancos, aproveitando-se dessa rivalidade e confiando aos mandingas funções superiores que aos demais, fazia a animosidade entre eles crescer. Os mandingas não eram obrigados pelos senhores brancos a comer restos de carne de porco e até mesmo permitiam que eles usassem trechos do Alcorão guardados em pequenos invólucros de pele de animais pendurados ao pescoço. Constantemente eram os negros mandingas que acabavam ocupando o lugar de caçadores de escravos fugitivos, recebendo a denominação de “capitães-do-mato”.

Quando um escravo pretendia fugir da senzala, além de se preparar para lutar sem armas através da capoeira e do maculelê, ele passava a usar o cabelo encarapinhado e pendurava ao pescoço um patuá, de modo que pensassem tratar-se de um negro mandinga, para não ser perseguido. Entretanto, se um verdadeiro mandinga o abordasse e ele não soubesse responder em Árabe, o verdadeiro mandinga descarregaria toda a sua violência nesse infeliz negro fugitivo. Assim nasceu a expressão “quem não pode com mandinga não carrega patuá”.

A vingança a quem se atrevesse a portar um falso objeto sagrado pelo muçulmano era algo muito terrível. Com o passar do tempo o hábito de utilizar patuás entre os negros foi se generalizando, pois eles acreditavam que o poder dos mandingas era devido, em grande parte, aos poderes do patuá. Por outro lado, os padres também utilizavam, e ainda utilizam, crucifixos e medalhas, agnus dei, etc., que depois de benzidos, a maioria das pessoas acredita possam trazer proteção aos devotos nelas representados. Na verdade, o uso do talismã perde-se na longa noite do tempo e confunde-se com a própria história do gênero humano.

Nos primeiros candomblés da Bahia era comum o pedido de patuás por parte dos simpatizantes e até mesmo por aqueles que temiam o culto afro, pois se dizia que o patuá poderia até mesmo neutralizar trabalhos de magia negra.

Mas afinal, o que é um patuá? O patuá é um objeto consagrado que traz em si o axé, a força mágica do Orixá, do santo católico ou guia de luz, a quem ele é consagrado.

Entre os católicos já era hábito utilizar um objeto ou fragmento que houvesse pertencido a um santo ou a um papa, até mesmo fragmentos de ossos de um mártir ou lascas de uma suposta cruz que teria sido a da crucificação de Jesus. Até mesmo terra, que era trazida pelos cruzados que voltavam da Terra Santa e que a utilizavam nesses relicários, considerados poderosos amuletos, que deveriam atrair bons fluidos e proteger dos infortúnios. Estes eram chamados de relicários. O nome relicário é originário do latim relicare-religar, que acabou formando a palavra relíquia. Logo o clero percebeu que não poderia impedir o uso dos patuás pelos negros, que os tiravam antes de entrar na igreja, mas voltavam a usá-los ao afastar-se dela. Decidiram, então, substituir os patuás africanos, que traziam trechos do Alcorão, por outro que trazia orações católicas, medalhas sagradas, agnus dei, etc.

Com a formação dos primeiros templos de Umbanda e a possibilidade de um contato mais direto com diversas entidades espirituais, as pessoas que buscavam proteção começaram a encontrar nesses objetos sagrados um apoio (era algo material que continha a força mágica vibratória sempre consigo). A partir de então, as entidades passaram a orientar sua elaboração, indicando quais objetos seriam incluídos na confecção do patuá e como se deveria proceder com eles para que recebessem o seu axé, ou seja, a força mágica.

Na verdade, a procura do patuá ou talismã é feita principalmente por quem se sente inseguro e conseqüentemente necessitado de maior proteção.
Os componentes mais utilizados para a confecção dos patuás são os seguintes: figas de guiné, cavalos marinhos, olho de lobo, estrelas de Salomão, estrelas da guia, cruz de caravaca, couro de lobo, pêlo de lobo, Santo Antonio de Guiné, imagens de Exu e Pomba-Gira, pontos diversos, orações, sementes variadas, imãs, dentes de cavalo, etc.

Não podemos esquecer que esses componentes singelos não têm valor se não forem preparados pelas entidades incorporantes.
Somente estas podem dar o axé do patuá.

publicado no site do terreiro tio antonio
(Pai André de Xangô)